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A pior dor de todas
Há diversas candidatas ao título de pior de todas as dores. As candidata mais conhecida e que sempre leva a melhor nas acaloradas discussões que envolvem este assunto é a dor do parto. Minhas leitoras hão de compreender e me perdoar o fato de eu simplesmente desconsiderar esta candidatura.
A dor do parto tem contra si o fato de ser uma dor dotada de dignidade em excesso. Quando falamos na pior de todas as dores não se pode levar em consideração simplesmente a intensidade da dor. Há diversos fatores que contribuem para a crueldade de uma determinada dor. A dignidade da dor do parto pode não amenizar sua intensidade, mas certamente a deixa mais suportável. Conta a meu favor o fato de que inúmeras mulheres sonham com o dia em que terão de suportar esta dor inenarrável. Além disso contam com orgulho as histórias que envolvem esta dor.
Comparemos a dor do parto com a dor de gases, por exemplo. A dor de gases não tem dignidade nenhuma. Ao passo que a dor do parto é uma etapa necessária para que se possa gerar uma nova vida, a dor de gases não é para nada necessária e envolve apenas flatulência.
Jamais se ouviu falar de alguém que espere ansiosamente o dia em que finalmente irá flatular. Mesmo o indivíduo que já está padecendo do mal de gases sente vergonha da forma e do momento no qual finalmente irá se libertar de seu mal.
A dor de gases, porém, mesmo em sua infinita indignidade, é superada pela dor do saco no que concerne ao critério intensidade. Deve-se reconhecer que a dor do saco tampouco é muito digna. É embaraçosa a situação do jogador de futebol que diante de todas as câmeras leva suas mãos às bolas enquanto se contorce de dor.
A bolada no saco é ainda mais digna do que a pancadinha sutil. E deve-se considerar que a sutil pancadinha do saco pode causar uma dor ainda mais intensa do que a da forte bolada. É uma questão de jeito, não de força.
Qualquer um que tenha algum dia levado uma bolada no saco sabe que dor é tão intensa que mesmo durando poucos minutos o trauma que causa dura muito mais tempo. Mesmo depois de a dor passar o pobre infeliz não consegue se levantar simplesmente porque o cérebro, sem acreditar que uma sensação tão catastroficamente dolorosa como aquela pudesse existir, fica incapacitado de articular qualquer tipo de movimento ou pensamento.
Há quem diga (e já conheci mais de um) que a pior de todas as dores é a perna dormente. Eu, sinceramente, sequer considero a perna dormente como um tipo de dor e por isso sou completamente incapaz de registrar os argumentos que foram levantados a seu favor (mesmo tendo que admitir que eram bons argumentos).
Não deixo aos leitores uma vencedora, mas deixo já três candidatas e alguns critérios:
As candidatas até o momento são a dor de gases, a dor de saco e a perna dormente.
Alguns critérios: intensidade da dor, indignidade da dor, vergonha relacionada, duração, efeitos traumáticos.
Aqueles dotados de mais sabedoria neste campo, pronunciem-se à vontade.